Sino dos ventos

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Do sonho ao pesadelo - parte I

Leia o post anterior, "Do sonho ao pesadelo - explicações", para entender este aqui. 


Fevereiro de 2008 - Flávia começou a planejar cada detalhe da sua futura casa, por mais insignificante que pudesse parecer. Foram inúmeras as noites em que ficou acordada até tarde, desenhando os ambientes da casa, calculando os custos da obra, montando incontáveis planilhas, navegando pela internet a procura de inspiração para a decoração e as diversas opções de materiais, vendo e revendo várias revistas, desde que tivessem fotos de casas. A maior parte das revistas foi comprada, mas Flávia chegou a subtrair duas ou três da sala de espera de consultórios médicos, não se importando que fossem antigas, estivessem amassadas ou que lhes faltassem algumas páginas. Solicitava orçamentos em pequenas lojas, em grandes varejistas e pela internet. Tudo era minuciosamente catalogado com nome do fornecedor, data do orçamento, prazo de entrega, opções de pagamento e validade. As revistas e orçamentos eram guardados numa pasta e a quantidade aumentava dia a dia. Após algumas semanas, a pasta já não era suficiente para imenso volume de papel. Como Flávia não conseguia mais se separar das revistas e orçamentos, comprou uma mala com rodinhas para facilitar o transporte. A cada dia a mala recebia mais revistas e orçamentos de todo tipo de material de construção, acabamento e decoração. De tijolos a lâmpadas, de revestimentos a cortinas, de material hidráulico a tapetes. Flávia sonhava e não se separava da mala, tamanho o medo de perder um orçamento que fosse. Ela também colecionava amostras de pisos e revestimentos, que ficavam empilhados sobre a mesa de jantar, pois era impossível carregá-las diariamente.

Março de 2008 - Flávia agendou a visita a um escritório de arquitetura para elaboração do projeto da casa. Alcides fez questão de acompanhá-la, pois queria garantir seus dois únicos desejos: que a porta da entrada principal da casa fosse mais larga que o convencional e uma churrasqueira. Flávia levou sua mala e de imediato começou a insistir para que o arquiteto olhasse seus orçamentos. Ele dizia não haver necessidade, mas Flávia não compreendia. Ela só esqueceu seus orçamentos quando ele lhe perguntou qual seria o estilo da casa. Ela nem imaginava o que isso significava e só conseguia dizer "quero uma casa moderna, espaçosa e prática". Ao final de quatro horas, ela estava chateada pois havia imaginado que sairia de lá com o desenho de sua nova casa. Estava magoada, pois o arquiteto não havia dado a mínima importância ao conteúdo da sua mala. E também estava indignada, afinal de contas estava pagando pela assessoria do arquiteto.

Julho de 2008 - quando finalmente o desenho de sua casa ficou pronto, contratou o engenheiro e o mestre de obras indicados pelo arquiteto, mas ainda havia uma série de providências a serem tomadas: finalização dos projetos de elétrica, hidráulica e esgotos, solicitação do alvará junto a Prefeitura e outros documentos. A previsão do engenheiro era de que a obra se iniciasse no próximo mês e fosse finalizada no início de dezembro. Flávia ameaçou procurar outros profissionais, mas foi alertada de que nem por milagre escaparia dos prazos, portanto não havia outra coisa a fazer, a não ser esperar.



Continua no próximo post.


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Do sonho ao pesadelo - explicações


Em outubro de 2013 recebi uma mensagem sobre o texto Porque "casinha"?, que postei em 31/05/2012 (se não lembra, clique sobre o título). Na mensagem, Flávia contava que havia lido meu post e entendia o que eu sentia em relação à construtora que contratei, pois ela também havia passado por uma situação diferente, mas dentro do assunto construção de casa. Durante um ano e meio ela foi do sonho ao pesadelo, vivendo em constante desespero ao administrar sozinha a obra de sua casa. Após o final da longa e tenebrosa tempestade, sentiu a necessidade de compartilhar seu calvário com as pessoas, como uma forma de alerta. Tentou publicar sua história nos jornais da cidade, escreveu para algumas revistas, mas não obteve sucesso e acabou desistindo. Tempos depois quando leu minha saga, Porque "casinha"?, pediu para que eu postasse sua história no Canto das Artes. Relutei por um bom tempo, afinal de contas esta não é a finalidade do blog. Mas ela tanto insistiu e o sentimento de solidariedade foi maior, que acabei concordando.

A intenção da Flávia era que seu relato servisse de alerta às pessoas que estivessem pensando em administrar pessoalmente a construção de uma casa, assim como a minha intenção ao descrever minha saga, foi alertar quem pretendesse contratar uma construtora. O que eu e a Flávia passamos, não desejamos para ninguém. 

Flávia escreveu sua história minuciosamente dia a dia, de fevereiro de 2008 a dezembro de 2009. Sempre mantendo o anonimato das pessoas envolvidas, ainda que a maioria não tenha agido honestamente com ela. O texto que Flávia me enviou era extenso e juntas definimos o que seria publicado ou não, mas ainda assim a história ficou longa, me obrigando a dividi-la em quatro posts que serão publicados na sequência. Todos os posts foram lidos e aprovados por ela antes de serem publicados.

Ainda que seja num simples blog, Flávia finalmente tem sua história divulgada, confiante de que seja de fato um alerta para as pessoas que planejam administrar sozinhas uma obra. Estejam certos de que não é nada fácil.

Flávia sempre foi uma mulher prática, decidida e corajosa. Casada com Alcides, são pais de três adolescentes: Tânis, Tales e Tiago. Sempre moraram no interior de Minas Gerais, num apartamento de 100m² que há muito tempo havia se tornado pequeno. Flávia e Alcides sempre cuidaram de tudo que diz respeito a casa e a família, como alimentação, limpeza, organização, lazer, escola, acompanhamento dos filhos, etc., contando apenas com uma auxiliar a cada 15 dias. Ela e o marido são bancários e trabalham 6 horas diárias, de segunda a sexta-feira. Ou seja, o dia dos dois é totalmente tomado e quase não sobra tempo para outras atividades.

Como todas as pessoas, Flávia e Alcides tinham (e ainda tem) sonhos. Sempre quiseram o melhor para a família e isso incluía morar numa casa maior, principalmente com os filhos querendo cada um ter seu próprio quarto. Possuíam um terreno e no início de 2008 resolveram construir a tão sonhada casa. Mas Flávia foi além: decidiu administrar pessoalmente a construção, pois imaginava ganhar tempo e economizar boa parte do dinheiro que vinham poupando para tal finalidade. Também contribuiu muito para tal decisão, o fato de que ultimamente Alcides estava apresentando sinais de estresse e, mesmo com a insistência dele em ajudá-la, ela fez questão de tomar a frente de todas as decisões para tal empreitada. Alcides tentou argumentar, mas acabou cedendo, mesmo porque sabia o quanto Flávia era competente e confiava plenamente nela. Mas Flávia desconhecia o que a esperava. Não estava preparada para ter tantas dores de cabeça. Nunca imaginou ser capaz de produzir lágrimas suficientes para chorar o quanto chorou. Jamais pensou que pudesse passar mais horas dentro da obra do que junto de sua família, no aconchego de seu apartamento.


Continua no próximo post.


Crédito: Desenho


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